quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Dizem que são nove meses. É o mais comum. Mas você, meu pequeno, já dá sinais de que não gosta do usual! Não quer ser comum. Talvez, então, chegue um pouco antes. Mamãe por conta disse terá que ficar mais quietinha. Vejo como uma forma de estarmos mais conectados, dentro do nosso cantinho, que está quase todo pronto pra sua chegada. É hora de desacelerar, de nos encontrarmos no silêncio dos pensamentos. É hora de dar valor às sensações comuns, como se as sentissemos pela primeira vez. E aí me vem à cabeça uma música:
"achei bonito o apito da busina, achei bonito o telefone tocar, achei bonito o trem andar na linha, meu bem, achei bonito o avião parar no ar"...

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Filhote,
veio à idéia falar sobre família, sobre a sua família. Você tem uma pequena família, eu e seu pai. Tem também uma grande família, seus avós e tios paternos; seus avós, tios e um sobrinho maternos. Aventuro-me a falar da sua grande família por parte de mãe, a família Távora. Será mais fácil falar dela porque estamos juntos há muitos anos. Você vai notar que vou me ater às qualidades e não aos defeitos e talvez pense que por isso eu esteja burilando nossa família, pra dizer que ela é boa demais. Mas não é bem por aí. É que com os anos de análise vamos percebendo que o defeito do outro, que eu defino como aquilo que incomoda muito, na verdade é uma leitura subjetiva e particular feita da realidade. Por isto acaba sendo uma impressão e não uma pura realidade. E assim fui vendo ao longo da minha análise que um defeito pode não ser defeito, e que desconstruindo a leitura da tal "realidade" as relações se tornam muito mais fáceis e compreensivas. Mas ainda não cheguei lá. Ainda tem muita coisas na nossa grande família que me incomoda. O que acontece é que hoje gosto de me ater mais às qualidades, o que farei aqui.
Pois bem, começo pelo seu avô Maurílio. O que falar dele? Quando ele me vem à cabeça, penso em arte. Seu avô foi quem me tornou acessível o mundo das letras. Sempre me presenteou com livros. Agora mesmo mamãe está lendo um livro que ele me deu. Vovô também sempre me contou sobre pintura. Me dizia que era importante ir a museus e que viajar iria mudar minha idéia sobre o mundo. E mamãe gosta de fazer um pouco de tudo isso. Ler, ir a Museus e viajar, de sorte que mamãe é muito do Vovô.
Vovó Norma. Quando penso nela me vem lágrimas nos olhos. Imagine uma pessoa disponível. Ela nunca vai dizer não. Ela vai sempre te ajudar. Sempre! Ela parece brava, mas é mansa. Sabe ser calma quando mais é preciso. E anda envelhecendo com muita dignidade, se tornando melhor, cada dia melhor e isso é raro.
Tia Flávia. Minha primeira noção de amizade. Nascemos muito perto uma da outra. Ela é mais nova, mas sempre cuidou de mim. Sempre, desde pequena. Acho que vai cuidar de você melhor que eu. Ela tem ternura nos olhos e bondade de sobra. Por isso ela sabe cuidar tão bem. Aliás, cuida de todos. E acho que por cuidar tanto, acaba se esquecendo de cuidar dela. Acontece assim com os muitos caridosos.
Tio Bê. Alegria pura. Não reclama de quase nada. Ele adora criança. E toda criança o adora. E é lógico você vai adorá-lo, porque não tem nada melhor que gente que fala a língua dos anjos, como o Tio Bê.
E o Tio Bruno. Tio Bruno gosta de música. Gosta de escrever. É sensível. Tem alma de artista e por isso é menos mundano.
Luis Felipe, seu primo, filho da Tia Flávia e do Tio Evandro. Um menino especial. Pra mim, é a exata medida do amor. Seus olhos curiosos enlevam-se diante do que não é usual, o que o torna único e raro. Temos uma linda conexão, sendo unidos para além dos laços de sangue, por uma compreensão de mundo que é só nossa.
Essa é sua grande família materna.
Outro dia, com a ajuda do papai, te falo sobre seu avós e tios por parte de pai.
Bjs e boa noite!

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Saudade! Você vai conhecer esta palavra. Mas acredito que você irá primeiro senti-la, antes de conhecê-la.
Te digo que saudade é coisa boa. É também coisa difícil. Um sentimento ambivalente! Me lembro de situações de saudades lindas. Me lembro de outras muito tristes.
Por que te falo sobre saudade? Porque seu pai passa muito tempo longe da gente e isso traz saudade. É um sentimento que desde muito cedo você irá conhecer. Por isso queria que soubesse algo. Saudade, como já te disse, pode ser difícil. Tem horas que nos faz chorar. Mas é bonito saber que nessas horas difíceis ela te traz tanto detalhe do outro, tanta compreensão. Por exemplo, eu sinto saudade da bagunça que seu pai faz em casa, embora quando ele esteja aqui fique ralhando com ele pra arrumar a casa. Quando morei fora, sentia falta do barulho da casa da vovó, que tantas vezes me fez ficar irritada. Por sentir saudade disso tudo aí, que parecia ruim, acabei sendo mais paciente com a bagunça e o tal barulho. Tudo isso nos leva a compreender melhor a vida, esse mexilhão de sentimentos, alguns ditos como bons e outros como ruins, que se transmudam, tornando-se os bons ruins e os ruins bons. Se bem que no final das contas dá pra dizer que todos eles acabam se tornando a maior parte do tempo bons. Por isso saudade é mais boa que ruim!
Já posso te sentir vibrando dentro de mim. Percebo que algumas das minhas posições te deixam tranqüilo e outras te incomodam. Também sinto que quando seu pai está aqui, por perto, ficas mais quieto. Como se a quietude dele nos invadisse, a mim e a você. Sensação boa, essa de saber que nós três nos misturamos, eu, seu pai e você.