João,
mamãe anda inundada de emoções pelos nascimentos de Flora, Isadora e Felipe. Daqui a pouco mais lágrimas com a vinda do Rafa. Nos contornos de cada um desses pequenos, repousa minha melancolia pelos seus passados meses. Em meio a lembranças, remexo fotos e cartas. O sobressalto vem com palavras silenciosas de Tia Bia, tão amada, que me acorda com a força antiga que é você, filho. Há mais de ano você nasceu. Entre nós, meses de sons sem palavras, enfileirados por sorrisos, grunhidos, choros e música. Música que hoje você não mais reconhece como minha, mas sua, num sinal de que somos antigos, eu e você, parceiros que se estranham e que se amam. Em você, hoje, ao redor de pequenas palavras, noto a diferença, como se fossemos feitos um de poesia e outro de prosa. Rezo para que em nosso caminho, de trilhas que serão encontradas e desencontradas, haja muita compreensão.
Pra você, um pouco da Carta que a Tia Bia nos escreveu logo que você nasceu, com uma citação de um velho amigo meu e dela, que quem sabe possa ser seu também, Hélio Pellegrino.
"Não estou comunicando a você o nascimento de minha filha. Que entre nós, sábios de amizade, se dispensam cerimoniais humanos e se cedam ao signo e ao símbolo da própria vida, que é calada. Para você, como minha filha é antiga! Como você a conheceu, sempre, em mim, na força de minhas contradições que buscam expressão, na poesia de meus poemas, na minha crença em Jesus Cristo, na minha amizade, na minha tristeza, na minha vida! Ela era esperada, ela existia no meu Amor, nesse mesmo Amor que nos levantará a poesia dos tempos e nos suscitará a Unidade presente. O nascimento de uma filha é como o nascimento de um poema. E a poesia existiu anterior a nós mesmos, pairou sobre as águas, no princípio do mundo. Eis que conto para você uma velha história: nasceu minha filha. Ela se chama Maria Clara. Ela por um momento teve o mundo nas mãos, e os campos e os seres da terra se alimentaram da sua inocência. O pai, por um instante, vive seu coração nu, no berço, despido de tudo quanto é acessório, pequenino, fragílissimo, ainda perfumado, sonolento e saudoso das searas eternas. (...)" (Carta de Hélio Pellegrino a seu amigo Otto Lara Rezende, publicada no livro Lucidez Embriagada, p. 34)
"E eu fico meio muda de palavras, só me vindo à cabeça esta carta do nosso amado H. Pellegrino a Otto Lara Rezende. Podia tê-la escrito (no sentido da veracidade do sentimentos, não no do talento), especialmente a parte ... COMO O JOÃO É ANTIGO PRA MIM! Por isso, acho, tô tão estupefata de emoção - coisas de reencontros...
Te amo, Mari.
Sou sua companheira em botar pra frente essa vidinha que te caiu no colo.
Bia"
domingo, 31 de maio de 2009
segunda-feira, 25 de maio de 2009
Pra quem vem chegando
Pra você, Felipe, que chega nesse mundo eu desejo um pouquinho de leveza, um toque de vagareza e uma porção de miudeza. Pra que mamãe te sinta quentinho e não se esqueça que seu mundinho corre-corre a luz de um tempo, ligeirinho-ligeirinho.
Pra que papai te pegue no colinho, mais que um montinho, porque bem rapidinho você vira um menininho.
Com amor,
Tia Mari
Pra que papai te pegue no colinho, mais que um montinho, porque bem rapidinho você vira um menininho.
Com amor,
Tia Mari
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Quando o João era bem pequeno e acordava regularmente a noite pra mamar, eu sempre me compadecia com os choros de bebês que escutava na madrugada. Sempre rezava e pedia que a mãe tivesse calma nessas adiantadas horas da noite, onde há uma mistura estranha de cansaço, desânimo e muito amor. Meu filho ainda não dorme toda a noite apesar dos seus quase 16 meses de vida e essa última noite dormiu menos do que todas as outras. Não tomem o relato ao pé da letra, porque talvez toda última noite mal dormida seja sempre a pior. Mas fato é que ele chorou muito, muito mesmo. O dia também não foi bom e lá pelas sete da noite recebo uma ligação do interfone, de uma vizinha, mãe do Lucas, de seis meses. Ela perguntou: posso dar um pulinho aí, pra dar algo para o João? Eu disse: sem problemas. E ela aparece com um CD, embrulhadinho num papel de bolinhas coloridas. Disse que ouviu o João chorando muito a noite e ficou preocupada com ele. Eu disse que o João estava com uma virose dolorosa, que o deixou com feridinhas na boca. Perguntei do Lucas e ela me falou que ela já estava há três noites sem dormir por conta de uma gripe forte, que não o deixava respirar direito. Nos despedimos e pronto. Fiquei a observar aquela menina entrar no elevador, de olhar cansado, mas terno. Quando fui ouvir o CD, com o João no colo, o que veio ao ouvido foram cantigas de ninar. O som era calmo e deixou o João sereno, como há algumas horas eu já não o via. Eu chorei e ainda choro agora escrevendo esse email, muito agradecida pela generosidade dessa mãe, que no amor ao seu filho foi solidária com uma vizinha que mal conhece. Talvez seja essa uma das maiores virtudes da maternidade: o amor genereso.
"eu também choro mari, por entender, mesmo que desde apenas a bolha da minha experiência pessoal, cada palavrinha que vai nesse seu relato. que bom que essa mãe conseguiu sair só da intenção - a gente na maioria das vezes fica só na intenção (de agradecer, de ajudar, de elogiar, de dizer - o que, acho, deixa um baita de uma energia paralisada e que, se bobear, vai explodir depois em coisas ruins). há tempos estou pra pedir pro síndico aqui do meu bloco autorização pra colocar um bilhete no quadro de avisos da outra portaria só pra agradecer a pessoa desconhecida que toca piano todos os dias por volta das 11 horas da manhã. inúmeras vezes eu estou com a manú no quarto, rezando pra ela conseguir dormir antes de ir pra escola e vem esse som maravilhoso lá de fora, me acalmando, acalmando ela. depois te ligo pra saber do nosso super john. quero cópia desse CD." Bia
"eu também choro mari, por entender, mesmo que desde apenas a bolha da minha experiência pessoal, cada palavrinha que vai nesse seu relato. que bom que essa mãe conseguiu sair só da intenção - a gente na maioria das vezes fica só na intenção (de agradecer, de ajudar, de elogiar, de dizer - o que, acho, deixa um baita de uma energia paralisada e que, se bobear, vai explodir depois em coisas ruins). há tempos estou pra pedir pro síndico aqui do meu bloco autorização pra colocar um bilhete no quadro de avisos da outra portaria só pra agradecer a pessoa desconhecida que toca piano todos os dias por volta das 11 horas da manhã. inúmeras vezes eu estou com a manú no quarto, rezando pra ela conseguir dormir antes de ir pra escola e vem esse som maravilhoso lá de fora, me acalmando, acalmando ela. depois te ligo pra saber do nosso super john. quero cópia desse CD." Bia
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