domingo, 31 de maio de 2009

Em silêncio, em palavras.

João,
mamãe anda inundada de emoções pelos nascimentos de Flora, Isadora e Felipe. Daqui a pouco mais lágrimas com a vinda do Rafa. Nos contornos de cada um desses pequenos, repousa minha melancolia pelos seus passados meses. Em meio a lembranças, remexo fotos e cartas. O sobressalto vem com palavras silenciosas de Tia Bia, tão amada, que me acorda com a força antiga que é você, filho. Há mais de ano você nasceu. Entre nós, meses de sons sem palavras, enfileirados por sorrisos, grunhidos, choros e música. Música que hoje você não mais reconhece como minha, mas sua, num sinal de que somos antigos, eu e você, parceiros que se estranham e que se amam. Em você, hoje, ao redor de pequenas palavras, noto a diferença, como se fossemos feitos um de poesia e outro de prosa. Rezo para que em nosso caminho, de trilhas que serão encontradas e desencontradas, haja muita compreensão.
Pra você, um pouco da Carta que a Tia Bia nos escreveu logo que você nasceu, com uma citação de um velho amigo meu e dela, que quem sabe possa ser seu também, Hélio Pellegrino.
"Não estou comunicando a você o nascimento de minha filha. Que entre nós, sábios de amizade, se dispensam cerimoniais humanos e se cedam ao signo e ao símbolo da própria vida, que é calada. Para você, como minha filha é antiga! Como você a conheceu, sempre, em mim, na força de minhas contradições que buscam expressão, na poesia de meus poemas, na minha crença em Jesus Cristo, na minha amizade, na minha tristeza, na minha vida! Ela era esperada, ela existia no meu Amor, nesse mesmo Amor que nos levantará a poesia dos tempos e nos suscitará a Unidade presente. O nascimento de uma filha é como o nascimento de um poema. E a poesia existiu anterior a nós mesmos, pairou sobre as águas, no princípio do mundo. Eis que conto para você uma velha história: nasceu minha filha. Ela se chama Maria Clara. Ela por um momento teve o mundo nas mãos, e os campos e os seres da terra se alimentaram da sua inocência. O pai, por um instante, vive seu coração nu, no berço, despido de tudo quanto é acessório, pequenino, fragílissimo, ainda perfumado, sonolento e saudoso das searas eternas. (...)" (Carta de Hélio Pellegrino a seu amigo Otto Lara Rezende, publicada no livro Lucidez Embriagada, p. 34)
"E eu fico meio muda de palavras, só me vindo à cabeça esta carta do nosso amado H. Pellegrino a Otto Lara Rezende. Podia tê-la escrito (no sentido da veracidade do sentimentos, não no do talento), especialmente a parte ... COMO O JOÃO É ANTIGO PRA MIM! Por isso, acho, tô tão estupefata de emoção - coisas de reencontros...
Te amo, Mari.
Sou sua companheira em botar pra frente essa vidinha que te caiu no colo.
Bia"

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